Profissão Amaldiçoada

Como muitos diariamente o faziam, este também chegou à porta e bateu.

— Dá licença?

— Pode entrar.

Era um homem baixinho, idoso, com o guarda-chuva escorrendo água, cabelos grisalhos e cavanha­que ralo no queixo pontudo.

— Queria falar com o senhor.

—  Já lhe atendo. Sente-se. E apontei-lhe uma cadeira ao meu lado.

— Muito obrigado, fico de pé. E ficou, até que nos voltamos para atendê-lo.

— Muito bem, amigo. Pode falar o que deseja.

*

Este é o introito de um dos casos mais impres­sionantes, dos muitos que atendemos em vários anos.

*

— Sou do interior, na margem do Paraná. Tenho uma fazenda muito boa, mas vivo sozinho, porque mi­nha mulher me abandonou. Trabalhei muito e agora, depois de velho, me veio um remorso muito grande e não tenho mais sossego.

Falava de cabeça baixa sem olhar...

— Por que não senta?

— Não sei se o senhor pode me ajudar.

— Por que não?

— É que sou um criminoso muito grande.

— Então precisa mais de ajuda que qualquer outro e o Espiritismo veio para os que mais precisam.

Levantou a cabeça, vivamente esperançado, mas retrucou.

— O senhor diz isso porque não sabe o que eu fiz.

—  Seja o que for que tenha feito, será ajudado. Pode falar.

Obrigamo-lo a sentar e o fez na beirinha da ca­deira, rolando o chapéu nas mãos, sem parar e, então, começou a sua história triste, falando depressa, atrope­lando as frases, como querendo acabar logo com aquilo:

— Matei gente inocente.

— Brigou com alguém e matou para vingar-se?... perguntei ajudando.

— Não senhor; sou matador profissional, matei umas quinze pessoas para ganhar dinheiro e cobrava muito caro, muito mais que qualquer outro. Será que dá para contar o resto?

— Pode falar sem receio; estou ouvindo.

— Meu pai também teve a mesma profissão e não tive alguém para me aconselhar e me desviar, porque minha mãe morreu cedo. Quando cheguei à maioridade, meu pai me revelou seu segredo, me levava junto quando tinha algum serviço; quando ele morreu, eu continuei na mesma vida e fui guardando dinheiro para me emancipar: meu pai não deixou nada, por­que era muito dado à bebida e ao jogo. Quando juntei bastante, comprei uma boa fazenda e em pouco tempo me arrumei, porque o algodão estava em alta e o gado também e eu fui me afundando nos negócios para não pensar em nada ruim.

— Mas se ia tudo bem, por que matar os outros?

— Promessa que fiz ao meu pai.

Mas uma noite minha mãe me apareceu em sonho e me disse que eu devia largar a profissão, que era amaldiçoada e contra as leis de Deus e que ela sofria muito, porque morreu de desgosto quando descobriu a vida de meu pai e agora, sofria ainda mais, vendo que eu seguia o mesmo caminho.

Não dei muita importância ao sonho porque, na ocasião, tinha três encomendas fáceis e precisava de dinheiro para tocar a fazenda.

Então ela, toda noite, deu de me aparecer e cada vez trazia uma das almas que eu tinha matado, com o sangue escorrendo do lugar onde a bala tinha acertado e me dizia de cada vez que vinha: "Está vendo o que você fez, meu filho? Pelo amor de Deus pare com isso, se quiser que sua mãe tenha sossego".

E foi assim até a derradeira e aí quem não tinha mais sossego era eu porque, dia e noite, aquelas almas estavam junto de mim, na minha casa, escorrendo sangue das feridas e me olhando com os olhos parados.

Comecei então a me arrepender e a ter remorso e me confessei à minha mulher, com quem tinha casado havia pouco tempo, me abrindo com ela; mas ela pulou da cama e nunca mais voltou. Me confessei então com o vigário e ele me disse que eu era um renegado e que devia me apresentar às autoridades para julgamento. Es­tive então uma noite com uma mulher, numa viagem de trem, e ela me falou do Espiritismo e me contou muitas coisas e então vim para esta capital e aqui estou na sua presença. Que é que o senhor me diz? Devo ir embora?

—  Sua situação é mesmo muito grave perante as leis de Deus e perante a sociedade, porque tirou a. vida de muitos e não se tira o que não se pode repor.

— Não tenho, então, salvação?

—  Sempre há salvação para todos, porque a bondade de Deus é infinita. Mas é preciso esforço e tempo. Como não pode ressuscitar os que matou. deve agora ajudar o maior número possível “de vivos” com sacrifício pessoal e assim entrará no caminho dai reabilitação espiritual. Para cada um dos que matou deve ajudar ou sacrificar-se por dez ou vinte, para que haja compensação, até certo ponto. Compreende isso? E está disposto a isso?

— Em quanto tempo posso fazer isso? Já estou velho.

— Não há tempo marcado; só se marca o começo. Tudo vai depender de você mesmo. O quanto mais se devotar aos seus semelhantes, tanto mais depressa avançará nesse caminho de salvação.

— O senhor não pode dizer o que devo fazer para começar?

— Vou dizer: Primeiro disponha de tudo o quanto tem e que foi adquirido com o sangue de suas víti­mas. Depois, com suas próprias mãos, aplique esses recursos em benefício de necessitados, aqui ou onde quiser. Desprenda-se de tudo o mais, abandone tudo e devote-se exclusivamente a essa tarefa, dia e noite, enquanto viver, organizando você mesmo seu programa de ação. Está disposto?

— Amanhã mesmo começo. Vou vender a fazenda e quero ficar aqui mesmo, para o senhor me fiscalizar se estiver errado, e farei tudo o que o senhor disse, enquanto tiver vida neste corpo velho.

— Então comece e de vez em quando apareça aqui para me visitar. Vamos agora fazer uma prece para agradecer a Jesus e à sua mãe o quanto te ajudaram para chegar até aqui e assumir este compromisso.

Enquanto fazíamos a prece, ele chorava em si­lêncio, com o rosto coberto com o chapéu, sentado na beira da cadeira com o guarda-chuva entre os joelhos; e quando terminei, ele saiu sem uma palavra, cabeça baixa, como que derreado ao peso de suas responsabi­lidades futuras.

Cumpriu tudo fielmente. Nos primeiros tempos comparecia ao encontro; chegava à porta da sala, saudava e dizia: estou fazendo tudo o que posso, gra­ças a Deus. Não esqueça de pedir a Jesus por mim. E retirava-se sem entrar.

Depois foi rareando as visitas. Pensávamos, será que ele desanimou? Mas pessoas que vinham à Casa, às vezes nos perguntavam: o senhor conhece um homem velho, baixo, de cavanhaque, que anda nos bairros fazendo assistência a doentes? Ele diz que o senhor é quem mandou.

Depois ouvíamos comentários sobre ele; visitava a qualquer hora, com chuva ou sol, os casebres e as fa­velas, levando comida, remédio, servindo de enfermeiro para os doentes abandonados, ficando com as crianças para as mães poderem trabalhar; levava médico às casas pobres; internava gente em hospitais, pagando despesas; velando os defuntos pobres, acompanhava os enterros, que ele mesmo pagava, e dava dinheiro às famílias, até que se encaminhassem, levando também para seu barracão os infelizes que encontrava caídos nas ruas e tratava deles até que se levantassem.

— Quem viu tudo isso? - perguntávamos.

— Todo mundo fala dele e, quando ele aparece num bairro pobre, há uma alegria muito grande por­que já se sabe que, enquanto ele ali estiver, ninguém passa necessidade.

A última vez que apareceu estava acabado e meio cego, com os olhos inflamados. Chegou à porta e, como sempre, não quis entrar; disse que não merecia; trouxemo-lo para dentro e obrigamo-lo a sentar-se. Perguntamos como ia seu trabalho; disse que estava fazendo o possível, mas que o corpo não ajudava; que agora estava muito cansado, mas não queria morrer sem nos agradecer a orientação que lhe demos; o di­nheiro também já estava acabando, e não sabia o que devia fazer depois.

— Não há depois; tudo para você, meu amigo, deve ser o presente, o esforço, o sacrifício, a humildade, a fé, a alegria do dever cumprido até o último suspiro e Deus, então, provera, segundo Sua santa vontade. As­sim é que deve pensar, mas cuide de sua saúde porque, se não o fizer, será também responsável perante Deus.

Foi embora e nunca mais o vi, nem ninguém mais falou dele e até hoje não sei o que aconteceu com o velhinho, que era conhecido nos bairros pobres como santo e cujo nome não sei qual tenha sido.

Mas, cremos que resgatou muitas de suas dívi­das, porque militaria ainda em seu favor a ignorância, a falta de orientação familiar e de um coração amigo que lhe falasse na alma a linguagem do amor e da fraternidade humana.

Mas quanto resgatou de seus erros, quem pode saber?


Livro: Relembrando o Passado
Autor: Edgard Armond
Editora: Aliança

3 comentários:

LUCONI disse...

Caríssimo Irmão Fraterno cuja humildade não permite colocar seu próprio nome, Deus o abençoe, já compartilhei esta magnífica postagem com todos que conheço e te agradeço por me lembrar que nunca é tarde para começar, beijos Luconi

Luna Di Primo disse...

tao bonita... assim é o caminho pra Deus...bjuuu

Amandio Sales disse...

A caridade é tão bela que revela-no quem esta por traz a caridade o desejo de progredir moralmente isso não tem idade. Jesus ensina-nos todos os dias como fazer...